Elmar Varjão
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Como criar cultura de segurança do trabalho no canteiro de obras?

A segurança do trabalho na construção civil, no entendimento de Elmar Varjão, CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, começa a ser definida muito antes de o operário colocar o capacete. Ela aparece na forma como o cronograma é montado, na escolha dos métodos construtivos e no exemplo dado por quem ocupa cargos de comando. Quando esses fatores não conversam, o equipamento de proteção individual acaba sendo a última e única barreira entre o risco e o acidente.

O setor convive com riscos que exigem atenção permanente: trabalho em altura, escavações, movimentação de cargas e instalações elétricas provisórias. As normas regulamentadoras, como a NR-18 e a NR-35, estabelecem requisitos claros para cada situação. O desafio é fazer com que essas regras deixem de ser apenas documentos de conformidade e passem a orientar o comportamento diário de centenas de pessoas em um canteiro que muda de configuração a cada semana.

O limite das normas sem cultura de prevenção

Uma obra pode ter todos os documentos exigidos em dia e, mesmo assim, registrar acidentes graves. Basta que a equipe enxergue a segurança como algo que atrapalha a produção. Nesse ambiente, o cinto fica desconectado porque o deslocamento é curto, a área de içamento não é isolada porque a carga é leve e o andaime é montado sem conferência porque o prazo está apertado.

A revisão da NR-18 reforçou a lógica de gestão ao substituir o antigo PCMAT pelo Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR, que pede identificação, avaliação e controle contínuo dos perigos. Como argumenta Elmar Varjão, a mudança aproxima a norma do que deveria ser a prática: a segurança como parte da gestão de riscos, revisada conforme a obra avança, e não como um papel arquivado no início do contrato.

Outro fator que merece atenção é a rotatividade das equipes. Em obras longas, empreiteiros e trabalhadores entram e saem conforme a fase do projeto, e cada novo grupo chega com hábitos próprios. A integração de segurança no primeiro dia, as conversas diárias antes do início das atividades e a supervisão próxima nas primeiras semanas ajudam a alinhar esses profissionais ao padrão da obra.

O exemplo que vem de cima

Imagine um gerente de obra que atravessa a área de concretagem sem capacete para resolver uma pendência rápida. Nenhum treinamento posterior terá o mesmo efeito que essa cena produziu nos operários que a presenciaram. O comportamento da liderança comunica prioridades com mais força do que qualquer cartaz ou palestra.

Por conseguinte, a cultura de segurança começa na diretoria e passa por engenheiros, mestres e encarregados. Cada um desses níveis precisa demonstrar, nas decisões cotidianas, que interromper uma atividade insegura é uma atitude valorizada. Na concepção de Elmar Varjão, a valorização das equipes passa justamente por esse compromisso: garantir que cada trabalhador volte para casa nas mesmas condições em que chegou.

Igualmente importante é dar autonomia a quem está na frente de serviço. O trabalhador que percebe um risco precisa saber que pode paralisar a tarefa sem sofrer represália e que sua observação será analisada pela equipe técnica. Essa autorização, presente em muitas políticas corporativas de segurança, só funciona quando a liderança a respeita na prática.

Planejamento seguro reduz a exposição ao risco

Grande parte da prevenção acontece no planejamento. A escolha de estruturas pré-moldadas ou metálicas, por exemplo, pode reduzir o tempo de trabalho em altura e a quantidade de atividades simultâneas no canteiro. Do mesmo modo, um layout bem planejado separa rotas de pedestres e de máquinas e define áreas de armazenagem que não obstruem acessos.

Em termos práticos, cada etapa do cronograma pode ser analisada também sob a ótica do risco: quais atividades vão ocorrer ao mesmo tempo, onde haverá equipes trabalhando em níveis diferentes e quando serão feitas as movimentações de carga mais críticas. Conforme esclarece Elmar Varjão, a pressão por prazo é um dos fatores que mais levam a atalhos perigosos, e por isso um cronograma realista também é uma ferramenta de segurança.

Indicadores que antecipam o acidente

Muitas empresas medem segurança apenas pelo número de acidentes registrados. Esse indicador é importante, mas, como observa Elmar Varjão, olha para o passado. Os chamados indicadores proativos, como inspeções realizadas, desvios corrigidos, quase acidentes relatados e horas de treinamento, mostram se a prevenção está funcionando antes que algo grave aconteça.

Esse ponto ganha relevância quando se observa o papel do relato de quase acidentes. Uma ferramenta que cai de um andaime sem atingir ninguém é um aviso gratuito sobre uma falha no sistema. Se a equipe tem medo de relatar, o aviso se perde, e a falha permanece até o dia em que alguém estiver embaixo.

Em linhas gerais, a segurança do trabalho bem conduzida não compete com produtividade e qualidade na execução, porque faz parte delas. Na interpretação de Elmar Varjão, obras com cultura de prevenção consolidada tendem a ser também mais organizadas, previsíveis e com maior eficiência operacional, já que o mesmo rigor que protege as pessoas protege o cronograma e o resultado do empreendimento.

 

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